Rio de Janeiro, Brasil

#AGENTEMUDA

A ação do plantio de uma pequena árvore tropical em uma favela carioca é o marco símbolo de um reflorescimento planetário.

CIDADE ÁGUA – Durante a transferência de Capital Mundial da Arquitetura do Rio de Janeiro para Copenhague, o prefeito carioca ofereceu uma muda de árvore, Ipê Amarelo, como presente à capital dinamarquesa. Símbolo do Brasil, a flor do Ipê Amarelo, uma vez ao ano, transforma aquela árvore em um exuberante e reluzente farol natural.

O gesto simbólico, que teve como intenção criar um marco de integração entre as cidades do mundo, a partir de paradigmas como a diversidade e a sustentabilidade, em uma lógica de cooperação, foi feito, não para que se plantasse a muda tropical na cidade nórdica, mas para que fosse plantada e cuidada como um marco vivo.

Optamos por plantar esse pacto global pela sustentabilidade de toda a civilização, no lugar onde a potência do que era visto como periferia se demonstra poderosa centralidade. Escolhemos uma favela, a Rocinha. E a favela escolheu uma escola como guardiã do marco simbólico para as cidades, marco vivo, a muda de Ipê Amarelo.

Rocinha, que em português significa algo como, uma pequena parcela de terra cultivada, é um bairro da cidade que, dentre muitas qualidades, explode em soluções territoriais a partir de formas engenhosas de ocupação dos espaços, produzidas quase exclusivamente por seus habitantes. Habitantes esses que junto a moradores de muitas outras favelas e áreas “periféricas” da cidade, são os reais responsáveis pela construção de toda a cidade a partir de seu trabalho árduo. Infelizmente esses espaços engenhosos, são também altamente precarizados pela histórica e estrutural ausência do Estado. Sua inação torna escassos, ou inexistentes alguns recursos fundamentais como o fornecimento de água potável, o recolhimento dos resíduos sólidos, o manejo de águas pluviais, o tratamento do esgoto sanitário, a acessibilidade ao meio físico, e tudo mais onde as soluções extrapolam o alcance da produção local.

A Rocinha localiza-se nas encostas de uma bacia hidrográfica de grande concentração de águas, aos pés do Parque Nacional da Tijuca (uma das maiores florestas urbanas do planeta). Ali chove muito. Por isso também a insalubridade gera um dois maiores índices de tuberculosa das Américas. Nesse mesmo lugar, cercado por três dos bairros de maior concentração de renda per capta e IDH do país (São Conrado, Gávea e Leblon), é constante se ver pessoas carregando baldes de água morro a cima, pela falta d`água! Que ainda hoje chega a durar semanas, frequentemente.

Com essa pequena ação do plantio da árvore das Capitais Mundiais da Arquitetura, que chamamos AGENTEMUDA, que significa ao mesmo tempo “nós mudamos” ou “agentes de transformação”, através de conversas lúdicas e dinâmicas interativas entre crianças e adultos, centradas nos valores locais, tentamos criar uma contranarrativa que “reinaugura o mundo” a partir de uma favela Brasileira.

Mesmo com tantas incertezas conseqüentes da história e do isolamento provocado pela recente pandemia, estivemos ali agindo juntos, com as mãos na terra da favela. Entre moradores e representantes de instituições de grande relevância, entre jovens estudantes uniformizados e policiais fardados empunhando instrumentos musicais ao invés de pistolas e fuzis.

Na data em que se comemora o dia da árvore, na abertura da primavera dos trópicos, conseguimos substituir a competição pela colaboração, a indiferença pela solidariedade, a violência pela benevolência. Ousamos esse ato extraordinário de transformação! E revelamos que, assim como as águas, quando nos tornamos parte do caminho por onde nos encontram, sempre encontramos novos caminhos para qualquer parte.

* Texto por Guto Santos.

Organizadores:

  • Ana Maria Nogueira & Brunele Almeida – Diretores de escola
  • Gaby Rocha – Arquiteta e Pesquisadora
  • Joana Martins – Arquiteta e Pesquisadora
  • Maciel Antônio – Arquiteto e Morador
  • Magda Gomes – Ativista e Moradora
  • Guto Santos – Arquiteto, Coordenador do Projeto, Pesquisador e iniciador das ações
Guto Santos
Arquiteto & Ativista
Foi coordenador executivo do UIA2021RIO quando idealizou a muda de Ipê Amarelo como símbolo da transferência das capitais mundiais da arquitetura e em seguida a ação para seu plantio.
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