COMMUNITY

Reunião de iniciativas participativas

1º encontro – Convite ao processo – Cidade Água

Foi em 29 de junho de 2021, ainda durante o 27º congresso mundial de arquitetos UIA2021RIO, que iniciamos o primeiro projeto brasileiro ao vivo para a plataforma acumulativa Comunidades & Bens Comuns (nome do projeto Commons & Communities no Brasil). Convidamos muitas pessoas para uma conversa sobre os primeiros entendimentos do que seria a proposta da plataforma expositiva que estava sendo construída, com vistas à próxima versão do congresso, a se realizar em 2023 na cidade de Copenhagen, Dinamarca.

Entre os convidados estavam artistas, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, professores universitários e pesquisadores de muitas áreas, arquitetos, urbanistas, historiadores, engenheiros, representantes do poder público, ativistas sociais, urbanos e ecológicos. Dentre eles, alguns residentes da favela da Rocinha.

A Rocinha, que em português significa algo como, uma pequena parcela de terra cultivada, é um bairro da cidade que, dentre muitas qualidades, explode em soluções territoriais a partir de formas engenhosas de ocupação dos espaços, produzidas quase exclusivamente por seus habitantes. Infelizmente esses espaços engenhosos, são também altamente precarizados dada à histórica e estrutural ausência do Estado, que pela própria inação tornam escassos, ou inexistentes, recursos fundamentais como o fornecimento de água, o recolhimento dos resíduos sólidos, o manejo de águas pluviais, o tratamento do esgoto sanitário, a acessibilidade ao meio físico, e mais uma série de questões cujas soluções extrapolam o alcance da simples produção local.

A Rocinha localiza-se nas encostas de uma bacia hidrográfica de grande concentração de águas, aos pés do Parque Nacional da Tijuca (uma das maiores florestas urbanas do planeta). Ali chove muito. Por isso também a insalubridade gera um dois maiores índices de tuberculosa das Américas. Nesse mesmo lugar, cercado por três dos bairros de maior concentração de renda per capta e IDH do país (São Conrado, Gávea e Leblon), é constante se ver pessoas carregando baldes de água morro a cima, pela falta d`água, que ainda hoje chega a durar semanas, frequentemente.

Voltando a reunião de junho, naquele momento o projeto ainda não tinha sequer um nome ou mesmo uma linha conceitual traçada. O que havia era o interesse, por parte de nós, os organizadores, de que se iniciasse um novo processo colaborativo a partir de diversas experiências preexistentes e de seus realizadores. Além disso, acreditávamos que os principais colaboradores e interessados em seguir o processo se auto selecionariam. Por isso o amplo convite que fizemos. Pois assim os próprios convidados poderiam ser fonte de persuasão do engajamento dos outros.

Saí motivado para um novo encontro, encaminhado ali mesmo, com a colaboração das diversas vozes presentes e já com data marcada.

Em seguida coloco a transcrição de um trecho da fala do professor Cunca Bocayuva que cria uma espécie de síntese do que se falou nesse dia:

“Eu entendi que estamos em sintonia com o debate da arquitetura e do urbanismo que se processou na cidade ao longo do tempo e com as experiências de mobilização produtiva, democrática, tecnológica dos territórios com centralidade na favela. E entendi que o objetivo é trazer um pouco de um conjunto de referências plásticas, técnicas, imaginárias, subjetivas, etc, a partir da experiência do Rio de Janeiro para levar para Copenhague quando do Congresso Internacional de Arquitetura e Urbanismo.

E entendi que vamos tomar e valorizar as referências das experiências territoriais da centralidade da favela levando em conta o destaque pra a Rocinha, levando em conta essa mobilização e o diálogo com a Rocinha. Claro que perguntando à Rocinha se ela quer ser isso, se ela quer ser a interlocutora metodológica deste debate, dos Comuns, visando ter a presença estética, política, técnica, urbanista, arquitetônica, de design e popular em Copenhague.

Quer dizer, esse espaço será ocupado a partir da subjetividade de corpo, território e tecnologia que parte da centralidade da periferia. Assim que eu entendi o paradigma, a metáfora e a tecnologia da jaca, os temas que estão sendo desenvolvidos pelo NIDES e Soltec, as experiência de articulação social e comunitário, os mandatos mobilizados, o plano de enfrentamento da COVID nas favelas, todo esse ambiente estratégico, todo esse ambiente da cidade, fora o fato que essa cidade está marcada por uma violência em um grau inusitado desde o Massacre do Jacarezinho e tudo que vai acontecer, mas entendi que tem uma sintonia com a centralidade da favela.

Levando em conta, depois o que pode se fazer como produto, estético, plástico, etc, tenho a ideia de a gente conhecer a experiência desses objetos demonstrativos e virtuais que os dinamarqueses produziram. Entendi isso, que isso é parte de um acervo, de uma mobilização estética, visual, etc, que seria interessante ver, por exemplo. A gente não tem uma maquete da Rocinha, por exemplo, construída, que relê a cidade a partir da Rocinha, a gente nunca viu a cidade a partir da Rocinha, a gente vê a Rocinha a partir da Gávea, de São Conrado etc. Quer dizer, a gente não tem mapas que leem a cidade, a gente não tem maquetes, a gente não tem nada que faça uma contra leitura da cidade. Acho que de alguma maneira eu vejo como uma oportunidade de pensar o comum nos termos que foram colocados, sempre com as ecologias que estão colocadas aqui, a centralidade da água, e essa metodologia que falaram que vai levar em conta a voz dos atores populares.”

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